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Envolvimento em infecções respiratórias oportunistas Básico

Publicado em 18/11/2005 (revisto em 29/04/2008)

O complexo B. cepacia como patogénico oportunista

Contrastando com as suas potencialidades na agricultura, em que a protecção e promoção do crescimento/rendimento de culturas agrícolas mundiais suscitam fortes interesses económicos, o complexo B. cepacia emergiu igualmente como um patogénio oportunista em infecções nosocomiais no Homem, criando crescentes preocupações sobre a eventual relação entre isolados ambientais (ou lançados no ambiente) e clínicos e os potenciais riscos de utilização desta bactéria como agente de controlo biológico.

As bactérias do complexo B. cepacia emergiram nas últimas duas décadas como patogénicas oportunistas em doentes com fibrose quística (FQ) (Cunha et al. 2003Link externo). No entanto, a sua patogenicidade não se limita à população com FQ, sendo um agente etiológico importante na granulomatose crónica e em doentes imunossuprimidos, afectando, por vezes, pessoas saudáveis.

A infecção com bactérias do complexo B. cepacia em doentes com FQ pode variar desde a colonização assintomática, ou declínio gradual do estado geral do doente, até ao agravamento rápido e fatal da função pulmonar. Esta deterioração rápida e letal da função pulmonar devido a infecção por B. cepacia, acompanhada de pneumonia necrotizante e septicémia, é conhecida como o “síndroma da cepacia”. Estima-se que a colonização pulmonar dos doentes com FQ com bactérias do complexo B. cepacia reduza significativamente a sua sobrevivência e que cerca de 20% a 30% dos doentes sucumbam ao “síndroma da cepacia”. A demonstração da aquisição de B. cepacia associada ao internamento hospitalar e a comprovação de infecção cruzada entre doentes com FQ através de contactos sociais e nosocomiais levaram a grande maioria de Centros de FQ no mundo a implementar regras especiais de higiene hospitalar e medidas severas de segregação de indivíduos colonizados e individuos não-colonizados com as espécies do complexo B. cepacia, no sentido de se minimizar o contágio.

Um aspecto particularmente grave na infecção por bactérias do complexo Burkholderia cepacia reside na sua elevada resistência intrínseca a múltiplos antibióticos, sendo capazes, inclusivamente, de utilizar penicilina G como única fonte de carbono e verificando-se facilmente o desenvolvimento de resistência cruzada a antibióticos de diferentes classes. A erradicação destes microrganismos é virtualmente impossível, sendo necessária a adopção de uma antibioterapia extremamente agressiva com o recurso a combinações de duas ou mais drogas, para o controlo da infecção.

A investigação dos mecanismos subjacentes à virulência e patogenicidade de bactérias do complexo B. cepacia é, possivelmente, uma das áreas que requer maior estudo na investigação da biologia destas bactérias. A razão pela qual doentes infectados com a mesma estirpe de B. cepacia, uns sucumbem rapidamente à infecção enquanto que outros permanecem sem sintomas é, por enquanto, desconhecida. O tamanho e a complexidade de organização do genoma do complexo B. cepacia contribuirão certamente para a heterogeneidade da virulência e patogenicidade destas bactérias.

A avaliação de características que conferem patogenicidade é, contudo, muito condicionada por particularidades inerentes ao hospedeiro e a susceptibilidade deste à infecção resulta de uma combinação complexa de factores genéticos que, no caso da FQ, é agravada pela grande heterogeneidade alélica do gene CFTR, sabendo-se que diferentes alelos conferem diferentes fenótipos da doença e, consequentemente, susceptibilidades variáveis. Muitos dos factores de virulência já conhecidos em outros microrganismos patogénicos foram também identificados em estirpes do BCC; no entanto, a sua contribuição para a doença não foi ainda demonstrada. Entre esses factores de virulência encontram-se lipases, proteases, sideróforos, hemolisinas, lipopolissacáridos e exopolissacáridos (EPS).

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