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Paul Erdös (1913 - 1996)

Publicado em 03/07/2008 (revisto em 05/09/2008)

O Homem que só gostava de números

Erdos
Paul Erdös
Fonte da imagem: MactutorLink externo.

“Um matemático é uma máquina de transformar cafés em teoremas”. (Erdös)

Paul Erdös nasceu em Budapeste, na Hungria, a 27 de Março de 1913, filho de pais judeus, embora não praticantes. Os seus pais, Lajos e Anna, eram professores de Matemática no liceu, e desde cedo desenvolveram o gosto do filho pela matemática. Erdös teve duas irmãs, Klára e Magda, que morreram de escarlatina poucas horas antes do seu nascimento.

Quando Erdös tinha apenas um ano, o pai foi feito prisioneiro na Primeira Guerra Mundial e enviado para a Sibéria durante seis anos. Com o pai preso e a mãe a dar aulas, Erdös foi educado por uma governanta alemã.

Erdös foi um génio precoce, aos 3 anos já fazia multiplicações com 3 algarismos, e aos 4 descobriu sozinho os números negativos.

Devido às mortes trágicas das suas irmãs, a mãe protegeu-o excessivamente durante a sua infância e adolescência. Foi educado em casa por tutores até entrar no liceu, que mesmo assim só frequentou em anos alternados. Sempre foi extremamente dependente da mãe, e apenas aprendeu a atar os sapatos com 11 anos, e a barrar pão aos 21.

Em 1919 a Hungria sofreu um golpe de estado comunista, e poucos meses depois sofreu um contra-golpe por forças fascistas e anti-semitas. A mãe de Erdös foi impedida de dar aulas durante os 26 anos que o regime durou, e os judeus foram perseguidos e discriminados abertamente.

Apesar das restrições anti-semitas, aos 17 anos, Erdös foi admitido na Universidade Pázmány Péter. Quatro anos depois, em 1934, saiu da Universidade com o grau de doutoramento.

Nos anos que Erdös passou na faculdade, convivia e colaborava quase exclusivamente com um grupo de matemáticos judeus. Nesse período, demonstrou o seu génio ao construir demonstrações elementares do Teorema Números Primos e de que existe pelo menos um número primo entre n e 2n.

Deu ainda os primeiros passos no cálculo combinatório, no qual se tornaria pioneiro. Foi também nessa época que começou a construir e a utilizar frequentemente as suas expressões curiosas, tais como chamar “fascista” a tudo o que lhe desagradava, “épsilons” às crianças e “patrões” às mulheres.

Erdös tratava Deus (em cuja existência não acreditava) por Supremo Fascista, e defendia que este possuía um Livro transfinito no qual estavam todos os resultados matemáticos e as suas demonstrações mais belas. Quando achava uma demonstração bela, dizia que tinha vindo directamente do Livro.

Durante os anos seguintes, a política mundial haveria de causar grande transtorno na vida de Erdös. Em 1934, abandonou a Hungria devido ao clima político, e foi para Manchester com uma bolsa de pós-doutoramento de 4 anos.

Nesse período feliz visitou frequentemente outras universidades, conhecendo HardyLink externo e Stanislaw UlamLink externo do qual se tornaria amigo e colaborador até à sua morte.

Em 1938, com o estalar da Segunda Guerra, foi para Princeton durante seis meses, onde não foi bem recebido devido ao seu estilo pouco ortodoxo. Ulam convidou-o a ficar em Madison, em Wisconsin, onde permaneceu durante 5 anos. Nesses anos conheceu Einstein e GödelLink externo .

Em 1943, conseguiu uma posição em horário parcial na Universidade de Purdue, e embora vivesse confortavelmente, sofria por não ter notícias da sua família na Hungria.

Apenas em 1948 conseguiu regressar à Hungria, encontrando a mãe e uma prima vivas. O pai tinha morrido de ataque cardíaco e a restante família tinha sido assassinada. Em meados de 1949 saiu outra vez da Hungria, e durante 3 anos viajaria entre a Inglaterra e os Estados Unidos, acabando por conseguir um emprego flexível na Universidade de Notre Dame em 1952.

Algum tempo depois foi-lhe oferecida uma posição permanente, mas ele recusou e saiu dos Estados Unidos. Devido a suspeitas infundadas, não seria permitido a Erdös regressar ao país durante dez anos, e passou-os maioritariamente em Israel. Finalmente, em 1963, foi-lhe novamente permitida entrada nos Estados Unidos.

Nos anos restantes Erdös viajou pelo mundo inteiro, sempre com a mãe a seu lado, até esta morrer. Tinha no entanto uma espécie de “lar” em casa de Ronald Graham, que conheceu a 1963, e se tornaria seu secretário e amigo para o resto da vida.

Colaborou com matemáticos de todos os níveis, divulgou e dinamizou a matemática por onde passava, ofereceu prémios pela resolução de problemas, e trabalhava 19 horas por dia à custa de café e anfetaminas.

Desde muito cedo, e até ao final da vida, Erdös foi obcecado com a morte e a senilidade, mas viveu até aos 83 anos, vivendo para além da maior parte dos seus amigos. Morreu de ataque cardíaco a 20 de Setembro de 1996, numa conferência em Varsóvia.

O seu único amor foi a matemática, e não teve mulher nem deixou filhos, apesar de adorar crianças. A sua extraordinária obra é constituída por 1475 artigos, superada em quantidade apenas pela de Euler. Sem ter criado teorias gerais, resolveu inúmeros problemas de teoria dos números, teoria dos grafos, e combinatória, e foi um dos maiores matemáticos do século XX.

Autor: Nuno Freitas

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